sexta-feira, 30 de julho de 2010

Amantes.


Você me pergunta se um dia seremos amantes. Você casado com outra que não eu. E/ou eu casada com outro que não você. E eu respondo:

- Não. Não somos capazes de ter apenas pouco um do outro.

 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Rio. Como um rio.

Hoje pela manhã eu ouvi a música tocando numa rádio qualquer. Pela janela eu assistia o mar correndo mais rápido do que meus olhos eram capazes de acompanhar. E a velocidade das rodas me levaram pra um lugar de anos atrás. Quando eu tocava e cantava baixinho no violão essa mesma música. E eu me dei conta que esse anos atrás era, de fato, outro lugar. Como um objeto que a gente muda da estante pra prateleira. Eu saí da estante por um breve momento e fui reexperimentar a prateleira simbolizada pelos anos atrás. Eu... eu não sabia que o hiato era tão grande. Anos atrás. Não meses. Ou semanas. Ou dias. Anos. Então eu entendi que a distância de posição entre onde me encontro agora e o lugar onde minha vida habitava nesses anos atrás é muito maior do que a distância entre os móveis da minha sala. Era um lugar diferente. Não mais feliz, nem menos divertido. Não mais próprio, nem menos difícil. Era apenas um lugar diferente na ordem universal. As quatro paredes do meu quarto significavam algo tanto quanto mais entusiasta. A música que saía do meu instrumento, presente de um amor grande demais pro meu entendimento, era sublime. Eu era capaz de fazer música! E meu quarto se enchia dela. Refletia na cabeceira da cama, cheia de figuras coladas, nas roupas espalhadas pelos quatro cantos, nos meus cabelos curtos encaracolados, na minha alma infantil, na minha capacidade de me entregar aos meus sonhos. Eu errava duas ou três notas e só me restava rir. E rir era o que de mais poderoso eu sabia fazer. Como ontem, sentada no banco de trás do táxi, ao rir com vontade de uma bobagem qualquer, alguém me disse: “Você ri de verdade!”. Talvez essa seja a única coisa que me remeta àquela pessoa de muito mais do que semanas atrás. Anos. Pouco mais de três anos. Aquela que gostava de escrever cartas e ler bilhetes deixados pela manhã. Que colocava sal demais na comida. Que usava calcinhas coloridas de algodão. Que era tímida e desconhecia o tamanho do próprio coração. A que acreditava piamente que os sonhos pulavam pro lado da realidade sem cerimônias. A que não questionava a verdade dos outros. E que confiava na máxima rodriguiana de que o amor dura pra sempre, se acabou não era amor. A de outrora e a de hoje quase já não se comunicam. Mas ainda há essa coisa que as une. Elas riem de verdade. Eu rio de verdade!


domingo, 18 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

O que fazer com os ossos?


O que fazer com aquela pessoa que você foi e não é mais? 

O que fazer com aquela pessoa que morava dentro e fora de você e que não existe mais? 

Onde esconder os restos mortais da parte de você que morreu e não ressuscitará? 

Onde desovar você, que não mais é você? 

Feito poeira, debaixo do tapete? 

Feito gente indigente, debaixo da ponte? 

Feito criança que deixou o mundo precocemente, entre as nuvens do céu? 

Feito boneca de pano desprezada pelas regras, debaixo da cama? 

Feito embalagem longa-vida, no lixo? 

Feito guimba de cigarro, entre as cinzas? 

Feito disco de vinil, no antiquário? 

Feito prova do crime, debaixo da terra do quintal? 

Feito inspiração, no subconsciente? 

Feito náufrago, numa ilha desconhecida? 

Ou feito amor que não sarou, num cantinho escondidinho do seu coração? 

terça-feira, 6 de julho de 2010

De mim.

Eu sei, eu sei. Eu sou, ou me tornei, esse caldeirão de emoções.  Eu falo demais. Eu choro demais. Eu penso demais. Eu sou essa chata, essa mala sem-alça às vezes. Esse monte de coisas que ficam aqui dentro e que eu quero por pra fora na marra. Eu estou tentando mudar. Mas você tem que entender que é um momento difícil. Nunca mais acredite quando eu disser que não tenho TPM. Na verdade eu tenho TDM. O problema é durante. Quando eu fico mocinha meu mundo cai. Ontem eu quis chorar, mas não podia porque ia borrar a maquiagem. Hoje eu quis chorar também, mas não ia pegar bem ter uma crise histérica na agencia da Light. Eu cheguei a invejar os bebês que podem chorar a torto e a direito a qualquer momento do dia ou da noite sem que alguém o julgue por isso. Mas eu estou tentando mudar. Mudar é difícil. Dizem que ninguém muda. Que a essência não muda nunca. Pode ser que eu não mude e que daqui a pouco você me jogue isso na cara, mas entenda que você também tem seus momentos. E, além do mais, eu sou ótima pessoa. E é por isso que você não foge tanto assim de mim. A gente se diverte. Ri horrores e fala besteira. Às vezes eu falo besteiras demais. Mas é só às vezes. Você sabe. Você sabe o quanto eu sou carinhosa. O quanto você pode confiar em mim. O quanto eu divirto. O quanto eu torço por você. É que às vezes eu quero um pouco mais. Um tanto mais do que você pode me dar em certos momentos. E eu entendo. Quer dizer, eu tento entender. Pelo menos. E você sabe que pode me corrigir. Que pode me dar uns toques. Mesmo que eu esbraveje na hora. Eu levo um tempo pra digerir as coisas. Mas nada do que você me disser passará despercebido. Eu vou te ouvir se você me pedir paciência porque meu prato ainda não chegou. Você briga comigo como se eu fosse criança. E eu talvez seja. De vez em quando. Você sabe, minha mãe está longe, não pode puxar minha orelha todos os dias. Eu preciso de regras. E você pode me mostrá-las. Mas pega leve porque tudo tem limite. Eu brigo pelo meu espaço. Eu digo coisas inconvenientes, mas não é por mal. Eu penso alto. Minha sinceridade me trai. Meu excesso de verdade me expõe. Isso é ruim, eu sei. Você já me disse, não precisa repetir o tempo todo. Mas veja o lado bom das coisas. Você nunca vai me ver fazendo ou dizendo algo que não seja verdade. Eu falo pelas costas, mas eu falo pela frente também. Não sei ser de mentira. Eu sei, eu sei. Isso nem sempre é uma vantagem. Eu também sou muito vaidosa. E você pode me ver orgulhosa em alguns ângulos. Até sou. Até fui. Até serei. Mas eu nunca vou deixar de dizer o quanto te amo quando eu tiver vontade de dizer. Eu sou olho no olho. E às vezes dente por dente. É o ascendente que cisma em querer ser mais do que o signo de Sol. Tudo bem, os dois são terríveis, eu sei. E as duas pessoas que moram dentro de mim também são terríveis. Elas vivem em conflito. Mas não pense, Vossa Senhoria, que és o que mais sofre com isso. Não, não. Eu sofro muito mais. Nós duas, sofremos muito mais. Mas as duas partes de mim te admiram muito. E te querem muito. Pode ter certeza. Elas são duas, mas nenhuma delas consegue se aproximar tanto assim de alguém que não seja por amor. Não temos talento pra outro interesse que não seja o de amar. E você, no fundo, sabe disso. Ok. Eu não vou ficar te dizendo isso a toda hora. É mais fácil pra mim alfinetar, encher o saco, fazer piadinhas e às vezes até desdenhar. Mas é puro amor. E puro orgulho. E puro medo de te ver ir embora algum dia e deixar a saudade no seu lugar. Você não faria isso. Ou faria? Vamos mudar de assunto. Eu não quero chorar agora. Não tem ninguém olhando. Mas não seria digno. Esse tal Saturno que está retornando está me deixando à beira de um ataque de nervos, à beira de uma crise de choro, à beira de chutar um balde qualquer. Eu sei que não é fácil conviver comigo. Minha máxima culpa. Eu só preciso que você entenda que eu não te amo de graça. Você é muito importante pra minha vida. Pras minhas noitadas sem fim. Pras minhas noites sem sono. Pras minhas tardes na praia. Minha casa é sua. Você pode entrar a hora que quiser. Sair é que vai ser um processo maior. Você pode dormir aqui comigo. Minha cama é confortável. Meu quarto é escuro. E eu adoro ver filmes. Minha pipoca doce é incrível. Você pode falar sobre absolutamente tudo comigo. Eu vou te ouvir. Vou te dizer o que eu penso. Vou te dar o maior colo do mundo se você precisar. Eu rio alto. Mas não se preocupe, os vizinhos já se acostumaram. Você pode aparecer aqui num domingo à noite chuvoso com uma garrafa de vinho. Ou pode me sequestrar e me levar pro seu lugar preferido. Mas não se chateie tanto se eu ficar puta se alguma não sair como eu queria. Dá e passa. Eu não abro mão de você. Eu não me arrependo de você um minuto sequer. Você pode me ligar de madrugada se não conseguir dormir. Te faço até uma massagem se você resolver aparecer cansado. Eu respeito sua família. Eu respeito a pessoa que você escolheu pra ser. É por causa dela que eu te amo tanto. Vamos rir muito juntos. Vamos chorar juntos. Vamos gritar Gol outras vezes. E a viagem pra Buenos Aires está de pé. Vamos comer muito Alfajor. Vamos fazer caretas nas fotos. Vamos brindar ao nosso encontro. Vamos achar graça dos momentos sem-graça. E vamos criar coisas. Vamos voar. Ficar à beira do precipício como o Louco do Tarô. Nesse casamento sem divórcio. Simbolizado pela ausência de um anel. Porque também faz parte. Espero que você me perdoe por ser essa inconstância. Por te odiar em alguns segundos. Eu sei que você também me odeia às vezes. Eu posso perceber. Mas não se culpe. Faz parte das relações. Eu não me culpo. Só te quero perto. Sempre. Quando eu tiver pesadelos e acordar chorando eu vou desejar sua presença. Mais do que você possa imaginar. Eu vivo você. Eu não te esqueço. E eu não te perco. Um minuto sequer. Porque parte da revolução que acontece em mim vem de você. Hoje eu sou uma pessoa melhor e mais feliz por causa de você. Não me deixe. Porque se fidelidade tem significado, ela deve ser mais ou menos isso que eu tenho por você. Sempre. Pra sempre.

Dedicado aos meus amigos. Os de coração. É de coração.

sábado, 3 de julho de 2010

A delícia de não saber do amanhã.



E se soubéssemos que a seleção brasileira perderia nas quartas de final? Não teríamos jamais gritado cada gol que gritamos. Não teríamos vibrado cada abraço de comemoração que demos. Não teríamos nos emocionado. O frio na barriga não existiria. O medo da derrota ou a ânsia da vitória não nos impulsionaria. As comemorações seriam dispensáveis. 


É aí que mora a delícia de desconhecermos o amanhã.
Não há bolas de cristal, runas ou tarô que nos dê a certeza do que nos espera. E mesmo que houvesse uma máquina do tempo ou qualquer coisa que o valha e que nos revelasse o amanhã, valeria a pena ir até lá pra saber? Penso que a vida perderia a graça. Deixaríamos de torcer pras vitórias ou por causa da certeza dela ou por causa da certeza do contrário. Não começaríamos nada se já tivéssemos a certeza de que haveria um fim. Um divórcio nos tiraria um casamento. Uma morte nos tiraria a luta contra a doença. Uma nota vermelha nos tiraria dos livros. E no fim das contas, nada faríamos.


A vida de Deus, se ele realmente existe e se ele realmente tudo sabe, deve ser bem sem-graça. Sem a surpresa do dia de amanhã.  A ignorância é que nos dá fé. E a esperança nos dá mostras de felicidade.

Melhor deixar vir. E comemorar. E sem esquecer que pra que um ganhe é preciso que o outro perca. Faz parte. E tudo depende apenas da forma como a gente vê as coisas.