O agressor de Silvio Berlusconi não tem antecedentes criminais, mas indica "possíveis problemas mentais".
Revolta agora tem outro nome...
Creio que, pelo menos, nas últimas três décadas que antecederam a virada do milênio, vivemos as delícias de idealizar os anos 2000. Em todos os países, em todos os idiomas, em todos os degraus da pirâmide social, de norte a sul, dos olhos puxados ao país tropical, do hasta ao chucruti, de onde o sol nasce quadrado às margens do Mar Morto, de cima das corcovas dos camelos aos iglus, todos se perguntavam que diabos aconteceria com o mundo quando, no dia 31/12/1999, o relógio batesse a décima segunda badalada. Uns acreditavam no fim do mundo, outros tantos no Bug. Carros voadores, viagens de férias à Lua, máquina do tempo e do teletransporte, ser vizinho dos Jetsons, pouco importa, o fato é: todos, sem exceção, acreditávamos em alguma coisa, qualquer coisa, relativa ao início de um novo século e, principalmente, à virada do milênio. Mas, para os nascidos no aclamado ano de 1982, além de todas essas coletivas especulações, havia algo ainda mais relevante: completaríamos 18 anos no exato ano de 2000. Entraríamos o novo milênio com a maioridade. Iniciaríamos um novo século com carteira de habilitação no bolso e sem mais migué nos seguranças em porta de boate. Seríamos livres num mundo novo. Donos do próprio nariz numa outra dimensão. E tudo indicava um futuro promissor. Democracia no Brasil, unificação da Alemanha, a informação, CD e DVD, o impeachment, a internet, o Tetra, o celular, a ovelha Dolly, o movimento pop, enfim... tava tudo certo! Rumávamos à tempos inesquecíveis. O mundo era nosso. De ante-mão, o mundo era nosso por merecimento, afinal, nascemos em 82, faz as contas!! Sairíamos de um velho milênio, do qual não nos interessava mais, abandonaríamos uma fase do nosso desenvolvimento, da qual, também já não nos instigava interesse há alguns anos e atravessaríamos um portal sem direito a volta. (não que nos fosse dada essa opção. Mas mesmo que fosse!) Ai, ai... Contávam... Bom, EU, pelo menos, contava os dias. Que privilégio! Início de um século novo, virada pra outro milênio, maioridade. Cortaríamos o cordão umbilical da adolescência, da dependência e do passado. Seríamos testemunhas oculares de uma nova era. Entraríamos em dois mundos desconhecidos de uma só vez: o do futuro e o da maturidade. E nos sentíamos capazes!
Medo e gritaria quando aparecia alguma
pererequinha dentro de casa. Passeios no centro a noite pra tomar sorvete e
jogar fliperama. O trenzinho que passeava pela cidade com as crianças e gente
vestida de bicho. Raspadinha de groselha. Brincadeiras na carroceria da Pampa do meu pai, onde eu dei
conta de rasgar três calcinhas na hora de descer, no mesmo dia, porque o
ganchinho da lona agarrava no shortinho. Joelhos ralados por conta dos caixotes
no mar um pouco nervoso, mas de água morna. Alguns quase-afogamentos, evitados por algum adulto. Castelinhos, buracos, vez de
enterrar quem? Caramujos, sirizinhos, conchas e estrelas do mar. Pé com piche.
Patins, skate, bicicleta, bola, frescobol, bet’s, cachorro. Quando chegaram os
namorados era no quarto dos meninos que eles dormiam. E a casa passou a não
ficar tão cheia. No freezer nada de geladinho, só cerveja mesmo. A notícia da
morte da Cássia Eller, na tv, ao vivo. “Mãe, empresta a chave do carro!” As
crianças já tiveram crianças, as idas até lá cada vez mais raras.