segunda-feira, 26 de julho de 2010

Rio. Como um rio.

Hoje pela manhã eu ouvi a música tocando numa rádio qualquer. Pela janela eu assistia o mar correndo mais rápido do que meus olhos eram capazes de acompanhar. E a velocidade das rodas me levaram pra um lugar de anos atrás. Quando eu tocava e cantava baixinho no violão essa mesma música. E eu me dei conta que esse anos atrás era, de fato, outro lugar. Como um objeto que a gente muda da estante pra prateleira. Eu saí da estante por um breve momento e fui reexperimentar a prateleira simbolizada pelos anos atrás. Eu... eu não sabia que o hiato era tão grande. Anos atrás. Não meses. Ou semanas. Ou dias. Anos. Então eu entendi que a distância de posição entre onde me encontro agora e o lugar onde minha vida habitava nesses anos atrás é muito maior do que a distância entre os móveis da minha sala. Era um lugar diferente. Não mais feliz, nem menos divertido. Não mais próprio, nem menos difícil. Era apenas um lugar diferente na ordem universal. As quatro paredes do meu quarto significavam algo tanto quanto mais entusiasta. A música que saía do meu instrumento, presente de um amor grande demais pro meu entendimento, era sublime. Eu era capaz de fazer música! E meu quarto se enchia dela. Refletia na cabeceira da cama, cheia de figuras coladas, nas roupas espalhadas pelos quatro cantos, nos meus cabelos curtos encaracolados, na minha alma infantil, na minha capacidade de me entregar aos meus sonhos. Eu errava duas ou três notas e só me restava rir. E rir era o que de mais poderoso eu sabia fazer. Como ontem, sentada no banco de trás do táxi, ao rir com vontade de uma bobagem qualquer, alguém me disse: “Você ri de verdade!”. Talvez essa seja a única coisa que me remeta àquela pessoa de muito mais do que semanas atrás. Anos. Pouco mais de três anos. Aquela que gostava de escrever cartas e ler bilhetes deixados pela manhã. Que colocava sal demais na comida. Que usava calcinhas coloridas de algodão. Que era tímida e desconhecia o tamanho do próprio coração. A que acreditava piamente que os sonhos pulavam pro lado da realidade sem cerimônias. A que não questionava a verdade dos outros. E que confiava na máxima rodriguiana de que o amor dura pra sempre, se acabou não era amor. A de outrora e a de hoje quase já não se comunicam. Mas ainda há essa coisa que as une. Elas riem de verdade. Eu rio de verdade!

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